31 outubro 2011

ainda.

    Depois de tudo , das pedras "partidas", que foram atiradas por alguma razão, mas sem razão alguma, por dentro, ela ainda o ama, depois de todo este tempo. E, depois de todo este tempo, o seu coração ainda suporta as cicatrizes, sem sinal de cura, mas tudo bem , depois de todo este tempo, ela ainda o ama. 
    Tenta livrar-se do passado, esperando que as luzes mudem. Mas ela tenta, tenta pelo seu amor , pelo seu orgulho, aprendendo a mal sentir a dor. A pele é mais grossa, e a tensão menor, e por muito que doa, ela não vai deixar-se enfraquecer, porque ainda o ama.
    Ela agora sabe que a sua fraqueza mostra uma alma egoísta, que nunca muda, porque ela ainda o ama. Para quem olha de fora, ela parece bem, tudo parece perfeito, ela parece feliz, e é tudo isso que ela quer que pareça. 
    Os ossos crescem, o tempo passa, a idade vai-se notando, ainda que a tentemos esconder, mas por dentro, ela ainda continua a amá-lo. Por dentro dos olhos cansados, ela vê o rapaz com os braços abertos, que a fizeram sentir-se um anjo. E tudo isso porque ela continua a amá-lo, para o resto da sua vida, na última de muitas milhas, ela continua a amá-lo, de braços abertos, depois de todo este tempo.


rutesilva.

25 setembro 2011

desculpa.

    Desculpa!
    Desculpa por te ter feito sonhar e não ser a mulher com que sempre sonhaste. Desculpa por te ter feito perder dois anos de vida que poderias ter aproveitado de outra maneira. Desculpa por não te ter dito as palavras certas nem aquelas que necessitavas ouvir. Desculpa por não te ter dado motivos para acreditares. Desculpa ter-te feito chorar, desculpa até ter-te feito sorrir. Desculpa todas as horas que perdeste, tudo aquilo que não dei, e tu deste. Desculpa todas as vezes em que penso em ti. Desculpa os meus erros. Desculpa os meus defeitos. Desculpa não te ter dado o meu ombro quando precisaste. Desculpa não ter chorado contigo, nem pelo menos ter-te limpo as lágrimas. Desculpa não te ter pedido que acreditasses, de corpo e alma. Desculpa não te ter dado sequer metade do que pediste. Desculpa não ter percebido as tuas palavras, pela forma como as disseste. Desculpa não ter compreendido o que precisavas. Desculpa não ter ouvido as tuas lágrimas a perfurarem o teu coração. Desculpa os nós cegos que deixei no teu peito. Desculpa se as minhas lágrimas não foram suficientes para curar as tuas. Desculpa não ser tão perfeita quanto um dia pensaste que era. Desculpa pelo que dei, e pelo que não dei, mas devia ter dado. 

    Desculpa!
    
Desculpa todos os pedidos de desculpa. E desculpa, desculpa deixar-te ser feliz ... sem mim. 

    Adeus, meu grande amor !



Rute Silva



01 abril 2011

perda .

    O vento levou tudo o que havia trazido, tudo o que há já tantos dias me deu. O sol já quase não brilha, a brisa já quase não passa, parece que o tempo parou. Parou como se a vida já tivesse também parado, como se já nem houvesse tempo. As flores multicolor, até essas já vejo a preto e branco ! E este odor, este odor a poeira, quando as minhas lágrimas caem no chão . . . Não me resta nada, sinto não ter forças para lutar, sinto-me só, com tanta gente à minha volta e ninguém ouve os meus gritos de revolta. Rio por fora e choro por dentro, por dentro deste vazio tão vago quanto o infinito. O tempo passa, mas está parado, como um relógio sem pilha, como um deserto só, uma ilha. "Gaivotas em terra, tempestade no mar", mágoa no meu coração, tristeza na minha alma, mar de lágrimas nos meus olhos, uma estranha sensação, uma cruel denuncia, uma bárbara insinuação, uma pessoa apenas, entre tantas, num milhão. Levaram-me, levaste-me tudo. O sorriso que nasce nos meus lábios é a lágrima dura que me escorre na alma, e todos os sorrisos são punhais no meu coração, tal como "existem punhais no sorriso dos homens". Sinto-me estranhamente confusa, estranhamente distante, estranhamente diferente. Sinto-me fria como uma rocha, sensível como uma pena. Sinto-me fora de um mundo, que afinal não é o meu. Sinto-me a morrer, as forças estão no fim, os olhos estão semi-cerrados e não tardam a fechar, a minha cabeça anda às voltas, sem saber como parar, o meu coração está frágil, fraco, os membros latejam, quase sem força.
    Carente a tudo e distante de todos os carinhos, fico sentada nesta cadeira, com a cabeça debruçada sobre estes braços, sobre esta mesa, a olhar os ponteiros do relógio, as horas a passar e o tempo, ainda assim, parado. As pessoas já são todas iguais, as roupas todas semelhantes, as gargalhadas todas maqueavélicas e eu, no fim da linha, no fim de contas, valho um centavo, entre coroas douradas e jóias valorosas. E o valor que eu tinha, a confiança que tinha em mim, perderam-se, no dia em que eu perdi!
    Chegou a hora de cruzar os braços e contemplar reacções. Chegou a hora de mudar de lugar, de não estar na fila da frente. Chegou a hora de valorizar esta mágoa, mudar de roupa, mudar de pensamento. Chegou a hora de ser uma personagem que nunca pensei vestir. Chegou a hora de saltar do avião, tiras as asas e voar, em destino final, de pára-quedas. Chegou a hora de não ser eu , mas de pensar em mim.

Rute Silva
1 Abril 2011


16 março 2011

amar é . . .

    É quase uma lei, mas mesmo sendo lei, não é uma obrigação, é um desejo, uma realidade. É um direito, mas entretanto, também é um dever.
    Para além de entrega, é um voto de confiança, de valor. É acordar e adormecer a sorrir, chorar de tanta alegria, esconder o rosto com tanta mágoa, ter saudades por tudo e por nada, dizer palavras bonitas a toda a hora, contagiar os infelizes com a própria felicidade. É um querer maior que poder, uma sensação de bem-estar inexplicável, um poder incontrolável.
    Os olhos brilham, o coração bate mais forte, há borboletas a voar-nos na barriga. Tudo ganha outra cor, tudo tem cheiro a perfume e a flores, um perfume intenso, mas suave, um perfume agradavelmente contagiante, tudo é perfeito, tudo é descomplicado, tudo parece tão fácil.
    É quase um medicamento, quase como uma anestesia, que nos muda a vida.
    As discussões são compreendidas, encaradas como um obstáculo que nos faz aprender, que nos faz crescer, que nos faz amar mais, porque é nas discussões que entendemos que as pessoas são verdadeiramente importantes.
    E quando anoitece, ficamos na cama, a olhar o tecto, como se fosse o céu, como se, de lá vissemos as estrelas. A almofada é um ombro que nos acolhe e os lençóis, os braços que nos protegem.
    Amar é andar na rua e não encontrar becos sem saída, é olhar o horizonte e nem sequer imaginar o fim. Amar é ser e fazer alguém feliz, partilhar palavras e momentos. E agora, é um amar, mais que amar-te, é não querer parar de lutar, é um respirar constante, uma vida compartilhada, são tantas palavras e um só nome, uma só pessoa.

Rute Silva

18 fevereiro 2011

seis anos, avô .

Sinto falta de tudo. Tudo, sem excepção.
É quando todos se vão embora e eu fico aqui , que me deixam mais saudade as tuas palavras.
Penso em ti todos os dias, todas as noites. Há momentos em que não consigo guardar as lágrimas, e nesses momentos solto as amarras para me sentir livre, ainda que, fria e só, chore. E as lágrimas que choro, branca e calma, ninguém as vê brotar na alma, ninguém as vê cair dentro de mim.
Passaram 6 longos, crueis, difíceis e egoístas, mas verdadeiros, ternos, saudosos e honestos anos. E mesmo assim, ainda me lembro do teu último gesto, das tuas últimas palavras, do teu último abraço, do teu último sorriso, das tuas últimas lágrimas, do teu último olhar. Lembro-me de tudo, como se fosse hoje, como se estivesse a acontecer. Lembro-me de tudo, lembro-me de te ver entrar pela porta de casa e dizer “Boa noite família” , lembro-me do teu simbólico chapéu e do teu casaco com gola de pêlo. Lembro-me de quando dizias à avó “Não sejas tão chatinha”. Lembro-me das tuas mãos, calejadas do trabalho árduo de todos os dias, das mãos que pegavam nas minhas, das mãos que me agarravam com cuidado , como se eu fosse de porcelana, as mesmas mãos, grandes e firmes de anos de trabalho, eram as mãos doces, suaves e gentis que acariciavam o meu rosto.
É verdade que nem deixaste dar-te o meu último abraço nem pude dar-te o meu último beijo. Fechaste os teus olhos castanhos que me aqueciam o coração, sem que eu tivesse sequer tempo de os contemplar mais uma vez.
Mas morrer é o apagar da lâmpada ao nascer do dia, não é o apagar do sol, e o pensamento da morte ajudar-nos-à a cultivar a virtude da caridade, porque talvez esse instante concreto de convivência seja o último em que estamos com este ou aquele. Eles, ou tu, ou eu, podemos faltar em qualquer momento.
Fizeste-me amar a vida, e por isso, não terei tristeza alguma em morrer, mas a vida é longa, e é sempre muito cedo ou muito tarde e hei-de morrer sem ter visto a vida toda.
E será a morte um sono? Não, a morte é o despertar definitivo.
Sei que, embora não estejamos os dois aqui sentados a contar histórias, a cantar, embora não estejas sentado comigo à mesa, estás em todo o lado onde eu estou, dás-me um beijo de boa noite e de bom dia e ainda me dizes “És a minha pequenina”. E embora me doa não poder tocar-te, fico feliz quando sinto que estás perto de mim, como agora. Os mortos só morrem quando os vivos os esquecem, e por isso, sabes que viverás sempre! Comigo, connosco! As pessoas não morrem, ficam encantadas, e tu sabes que serás sempre o Super, o Melhor, o Mago, o Ilusionista, o Sonhador. Serás sempre Único.
A maior alegria que posso ter é saber que sempre te tive comigo, e que te vou ter sempre.
Sabes o quanto me custou aguentar estas lágrimas enquanto escrevia. Mas perdoa, perdoa-me por não conseguir aguentar mais. Perdoa-me por já mal conseguir ver o que escrevo. Perdoa-me por não ter aguentado e ter borratado a tinta que gastei, por ter desfeito estas linhas. E perdoa-me, porque sendo forte, ainda sou fraca.
É à noite que é mais belo acredital na luz, é à noite que tudo se esconde, é aí que tu vens puxar os meus lençóis para me cobrir. E é aí que eu digo:
Não é um Adeus, é um Até Já , Avô .
Rute Silva

03 fevereiro 2011

viver.

                Há momentos na vida em que decidimos parar. Parar para pensar, parar para raciocinar, parar para olhar em redor, olhar as pessoas, as ruas, as árvores, ouvir o barulho do trânsito, ouvir o vento sussurrar. É quando paramos que nos damos conta de como a vida é complexa, de como tudo é diferente, é quando paramos que notamos que afinal, somos apenas um ser humano, um no meio de tantos. Tantos tão iguais e tão diferentes!
                É quando paramos que percebemos que, no meio da multidão, somos um ser tão íngreme e tão pequeno, que qualquer uma das pessoas poderá dar-nos um encontrão e dizer “sai do meio do caminho”, mas entretanto, haverá outro  indivíduo capaz de tropeçar em nós e dizer “desculpa”.
                A vida é feita de atitudes. Em muitas delas nem sequer há sentido, em muitas delas nem sequer há razão, mas muitas delas, muitas vezes, são as correctas. 
                O Homem foi feito para errar, foi feito para aprender. Não são todos os que conseguem aprender com os erros,  mas são alguns os que põem as mãos à cabeça e dizem “estava errado” , é nesse instante que o coração tem necessidade de pedir desculpa mas, acima de tudo, desculpar-se a si próprio. É verdade, a cabeça nem sempre pensa o que o coração sente, e é por isso que, muitas vezes ficamos indecisos sobre o que fazer e não fazer, sobre o que pensar e não pensar. Ficamos indecisos sem termos noção do passo que vamos dar, para que lado o vamos dar e se o devemos dar. Ficamos indecisos e, muitas vezes, as nossas dúvidas traem-nos. Nesses momentos queremos fazer o tempo voltar atrás , talvez atrasar o relógio ou atrasar os dias, mas sabemos que a vida não é um conto de fadas, não fazemos magia, e temos que saber erguer a cabeça quando nos apercebemos que estamos em má posição. Quando isso acontece, a única solução é tentar perdoar as atitudes e remediar, se não apagar por completo todos os males e todos os erros que cometemos.
                É verdade, dizem que não somos ninguém se não sonharmos. Sonhar faz parte de nós, parte do que fomos, do que somos, do que seremos. Sonham as crianças, sonham os adolescentes, sonham os adultos, sonhamos todos, com tudo, com nada. Mas se não sonharmos, não teremos objectivos, e se não tivermos objectivos, que seremos , ou melhor, quem seremos nós, então?  
                Ninguém disse que a vida era fácil, ninguém disse que todos os dias são perfeitos, ninguém disse que tudo se consegue sem esforço! E somos seres humanos, até podemos tentar fingir que não há nada de mais perfeito que acordar de manhã e sorrir, mas e se esse mesmo sorriso não nos vier do coração, não nos vier da alma? É que somos seres de tal modo volúveis, que acabamos por sentir até os sentimentos que fingimos. Somos seres de tal modo impressionantes que conseguimos chorar de tristeza e chorar de felicidade. Mas muitas vezes, não somos seres tão fortes ao ponto de conseguirmos ficar de pé quando tudo em nosso redor cai.
                Apesar disso, ainda ninguém ousou dizer que ninguém deve sonhar, e sendo assim, sonhando, continuaremos a ser crianças, mas continuaremos também a crescer e a aprender, todos os dias. Porque sonhar, é viver. E viver, é o melhor que a vida nos dá !
Rute Silva

15 janeiro 2011

às vezes

    Às vezes é preciso aprender a perder, a ouvir e não responder, a falar sem nada dizer, a esconder o que mais queremos mostrar, a dar sem receber, sem cobrar, sem reclamar. Às vezes é preciso respirar fundo e esperar que o tempo nos indique o momento certo para falar e então alinhar as ideias, usar a cabeça e esquecer o coração, dizer tudo o que se tem para dizer, não ter medo de dizer não, não esquecer nenhuma ideia, nenhum pormenor, deixar tudo bem claro em cima da mesa para que não restem dúvidas e não duvidar nunca daquilo que estamos a fazer.

    E mesmo que a voz trema por dentro, há que fazê-la sair firme e serena, e mesmo que se oiça o coração bater desordeiramente fora do peito é preciso domá-lo, acalmá-lo, ordenar-lhe que bata mais devagar e faça menos alarido, e esperar, esperar que ele obedeça, que se esqueça, apagar-lhe a memória, o desejo, a saudade, a vontade.
    Às vezes, é preciso partir antes do tempo, dizer: aquilo que mais se teme dizer, arrumar a casa e a cabeça, limpar a alma e prepará-la para um futuro incerto, acreditar que esse futuro é bom e afinal já está perto, apertar as mãos uma contra a outra e rezar a um Deus qualquer que nos dê força e serenidade. Pensar que o tempo está a nosso favor, que a vontade de mudar é sempre mais forte, que o destino e as circunstâncias se encarregarão de atenuar a nossa dor e de a transformar numa recordação ténue e fechada num passado sem retorno que teve o seu tempo e a sua época e que um dia também teve o seu fim.
    Às vezes mais vale desistir do que insistir, esquecer do que querer, arrumar do que cultivar, anular do que desejar. No ar ficará para sempre a dúvida se fizémos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que devia ser feito. Somos outra vez donos da nossa vida e tudo é outra vez mais fácil, mais simples, mais leve, melhor.
    Às vezes é preciso mudar o que parece não ter solução, deitar tudo a baixo para voltar a construir do zero, bater com a porta e apanhar o último comboio no derradeiro momento e sem olhar para trás, abrir a janela e jogar tudo borda-fora, queimar cartas e fotografias, esquecer a voz e o cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo de a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e cada desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar a chave fora, ou então pedir a alguém que guarde tudo num cofre e que a seguir esqueça o segredo.
    Às vezes é preciso saber renunciar, não aceitar, não cooperar, não ouvir nem contemporizar, não pedir nem dar, não aceitar sem participar, sair pela porta da frente sem a fechar, pedir silêncio, paz e sossego, sem dor, sem tristeza e sem medo de partir. E partir para outro mundo, para outro lugar, mesmo quando o que mais queremos é ficar, permanecer, construir, investir, amar.
    Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho e mesmo que não haja caminho porque o caminho se faz a andar, o sol, o vento, o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar. Até se conformar e um dia então esquecer.