Sinto falta de tudo. Tudo, sem excepção.
É quando todos se vão embora e eu fico aqui , que me deixam mais saudade as tuas palavras.
Penso em ti todos os dias, todas as noites. Há momentos em que não consigo guardar as lágrimas, e nesses momentos solto as amarras para me sentir livre, ainda que, fria e só, chore. E as lágrimas que choro, branca e calma, ninguém as vê brotar na alma, ninguém as vê cair dentro de mim.
Passaram 6 longos, crueis, difíceis e egoístas, mas verdadeiros, ternos, saudosos e honestos anos. E mesmo assim, ainda me lembro do teu último gesto, das tuas últimas palavras, do teu último abraço, do teu último sorriso, das tuas últimas lágrimas, do teu último olhar. Lembro-me de tudo, como se fosse hoje, como se estivesse a acontecer. Lembro-me de tudo, lembro-me de te ver entrar pela porta de casa e dizer “Boa noite família” , lembro-me do teu simbólico chapéu e do teu casaco com gola de pêlo. Lembro-me de quando dizias à avó “Não sejas tão chatinha”. Lembro-me das tuas mãos, calejadas do trabalho árduo de todos os dias, das mãos que pegavam nas minhas, das mãos que me agarravam com cuidado , como se eu fosse de porcelana, as mesmas mãos, grandes e firmes de anos de trabalho, eram as mãos doces, suaves e gentis que acariciavam o meu rosto.
É verdade que nem deixaste dar-te o meu último abraço nem pude dar-te o meu último beijo. Fechaste os teus olhos castanhos que me aqueciam o coração, sem que eu tivesse sequer tempo de os contemplar mais uma vez.
Mas morrer é o apagar da lâmpada ao nascer do dia, não é o apagar do sol, e o pensamento da morte ajudar-nos-à a cultivar a virtude da caridade, porque talvez esse instante concreto de convivência seja o último em que estamos com este ou aquele. Eles, ou tu, ou eu, podemos faltar em qualquer momento.
Fizeste-me amar a vida, e por isso, não terei tristeza alguma em morrer, mas a vida é longa, e é sempre muito cedo ou muito tarde e hei-de morrer sem ter visto a vida toda.
E será a morte um sono? Não, a morte é o despertar definitivo.
Sei que, embora não estejamos os dois aqui sentados a contar histórias, a cantar, embora não estejas sentado comigo à mesa, estás em todo o lado onde eu estou, dás-me um beijo de boa noite e de bom dia e ainda me dizes “És a minha pequenina”. E embora me doa não poder tocar-te, fico feliz quando sinto que estás perto de mim, como agora. Os mortos só morrem quando os vivos os esquecem, e por isso, sabes que viverás sempre! Comigo, connosco! As pessoas não morrem, ficam encantadas, e tu sabes que serás sempre o Super, o Melhor, o Mago, o Ilusionista, o Sonhador. Serás sempre Único.
A maior alegria que posso ter é saber que sempre te tive comigo, e que te vou ter sempre.
Sabes o quanto me custou aguentar estas lágrimas enquanto escrevia. Mas perdoa, perdoa-me por não conseguir aguentar mais. Perdoa-me por já mal conseguir ver o que escrevo. Perdoa-me por não ter aguentado e ter borratado a tinta que gastei, por ter desfeito estas linhas. E perdoa-me, porque sendo forte, ainda sou fraca.
É à noite que é mais belo acredital na luz, é à noite que tudo se esconde, é aí que tu vens puxar os meus lençóis para me cobrir. E é aí que eu digo:
Não é um Adeus, é um Até Já , Avô .
Rute Silva
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